A encruzilhada da tabela periódica…

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Não há quem tenha estudado exatas, que não enfrentou uma Tabela Periódica, sobretudo químicos, físicos, engenheiros. Excelente ferramenta para alguns e pesadelo para muitos, neste ano por decisão da ONU o mundo estará celebrando o ano internacional da Tabela Periódica. Mas ela vem sofrendo de crise existencial, pois ao completar 150 anos, o diagrama que reúne os elementos químicos por semelhança enfrenta dificuldades para continuar crescendo.

Acelerador de partículas do GSI, na Alemanha, um dos centros que tentam descobrir elementos superpesados (G. Otto/GSI Helmholtz Center for Heavy Ion Research)

Em 1869, um professor da Universidade de São Petersburgo, o russo Dmitri Mendeleev (1834-1907), concebeu um diagrama em que ordenava cerca de 60 elementos químicos então conhecidos em função de sua respectiva massa. Essa foi a primeira versão do que viria a ser conhecida como a moderna tabela periódica, hoje composta de 118 elementos, dispostos em 18 grupos (colunas) e 7 períodos (linhas).

Sem muito stress, uma lembrança bem básica da construção da Tabela Periódica
Atualmente, os elementos são organizados de forma crescente em razão de seu número atômico – a quantidade de prótons em seu núcleo – e os de um mesmo grupo apresentam propriedades similares. Em seu sesquicentenário, essa ferramenta ainda é indispensável para explicar (e prever) interações químicas e inferir características dos elementos, como reatividade, densidade e disposição dos elétrons em torno do núcleo atômico, onde, além dos prótons, ficam os nêutrons. “Hoje a tabela periódica pode ser considerada a enciclopédia mais concisa que existe. Quem sabe usá-la encontra muitas informações em uma única folha de papel”, diz Carlos Alberto Filgueiras, químico e historiador da ciência da Universidade Federal de Minais Gerais (UFMG). “Não existe nada igual em outra área do conhecimento.”

A partir dos anos 1940, não foram expedições de campo que fizeram a tabela periódica crescer de tamanho, mas experimentos conduzidos em aceleradores de partículas. Faz 80 anos que a ciência não descobre um elemento desconhecido na natureza – o último foi o frâncio (Fr), de número 87, há exatos 80 anos. Desde então, os cerca de 30 novos membros agregados à tabela foram primeiramente produzidos por meio de reações nucleares, embora alguns, como o plutônio, acabaram também sendo encontrados na natureza depois de terem sido fabricados artificialmente em instalações da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia.

O Brasil não está no seleto clube de países com equipamentos capazes de gerar novos elementos. As dificuldades de fabricá-los – cada vez mais pesados, ou seja, com mais prótons em seu núcleo atômico, e de meia-vida (decaimento radioativo) fugaz, de frações de segundo – levam alguns cientistas a indagar até que ponto será possível expandir a tabela e acomodar elementos de comportamento distinto.

Um dos pesquisadores que se questionam sobre isso tem predicados especiais. O físico nuclear Yuri Oganessian, 85 anos, do Instituto Unificado de Pesquisa Nuclear (JINR), em Dubna, distante cerca de 120 quilômetros de Moscou, é a segunda pessoa viva cujo nome foi usado como inspiração para denominar um elemento. Na atual versão da tabela periódica, o elemento mais pesado, que figura em seu canto inferior direito, é o oganessônio (Og), de número atômico 118. Há 60 anos, o russo se dedica a produzir novos elementos superpesados, aqueles com número atômico superior ao 92 do urânio (U), os chamados transurânicos, tendo participado da descoberta de cerca de uma dezena de elementos.

O oganessônio foi produzido apenas como um punhado de átomos num experimento conduzido em 2006 no acelerador de partículas do Laboratório Flerov do JINR. Foi obtido por meio de colisões, em condições especiais, que promoveram a fusão de átomos do elemento 20, o cálcio, e do 98, o califórnio. Devido ao pequeno número de átomos produzidos e sua meia-vida muito curta, ainda hoje, os pesquisadores não conseguiram analisar as propriedades químicas do oganessônio. Caso ele corresponda ao que se espera da sua posição na tabela periódica (grupo 18), ele é um gás nobre, como o hélio, com baixa reatividade. Por ora, no entanto, pouco se sabe sobre suas propriedades.

“Será que o elemento 118 se parece com um gás nobre? Frequentemente a resposta dada a isso é não”, disse Oganessian durante um encontro de cientistas de renome para celebrar os 150 anos do trabalho de Mendeleev, realizado em Paris no final de janeiro pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Acho que o elemento 118 provavelmente ainda vai se mostrar um integrante do 18º grupo da tabela. Na transição do 118 para o 119, espero ver mudanças, que provavelmente serão observadas, mas ainda de forma fraca.” Esse otimismo, porém, não vai muito além. “Acho que, nos elementos 120, 121 ou 123, a diferença entre os grupos será bastante menor ou desaparecerá completamente”, afirma Oganessian. “A partir desse ponto, a tabela periódica teria de mudar?”

A pergunta do russo leva a outra questão. Se até agora tudo o que se viu em química respeita as regras da tabela periódica, que razão há para se suspeitar que seu diagrama pode se tornar obsoleto em razão de novas descobertas? O fantasma assombrando a tabela tem nome e sobrenome: Albert Einstein e sua teoria da relatividade especial. Oganessian explica que, quanto mais massa tem um núcleo atômico (onde ficam os prótons, com carga elétrica positiva), mais ele atrai os elétrons, de carga negativa, situados na primeira camada formada por essas partículas que orbitam o núcleo. Esses elétrons passam então a se movimentar mais rápido e, no caso dos núcleos de elementos superpesados, aproximam-se muito da velocidade da luz. Esse cenário leva os elétrons, que, em condições normais, têm massa 1.800 vezes menor que a do próton, a se tornarem mais pesados. Assim, acabam alterando a massa final do átomo e desorganizando o esquema das órbitas dos elétrons, um dos parâmetros explicados pela atual tabela periódica.

A produção de elementos superpesados que duram mais tempo é um desafio da pesquisa em física nuclear

Antes mesmo de o problema ser observado em experimentos, alguns teóricos já se ocupam em construir uma tabela periódica relativística. Nela, a relatividade de Einstein também passa a ter um papel relevante na descrição do átomo, antes compreendido apenas pelas forças eletromagnéticas e nucleares, que são explicadas pela mecânica quântica. No entanto, poucos cientistas se atrevem a fazer afirmações categóricas sobre o que poderá ser visto nos aceleradores de partículas.

Simular matematicamente um núcleo atômico de um elemento superpesado, com mais de 100 prótons e quase 200 nêutrons, é ainda tarefa impossível. Não há poder computacional disponível para isso, e a abordagem estatística não é confiável para descrição de certas propriedades. “Precisamos então usar instrumentos matemáticos que permitam tratar um problema ‘não muito erradamente’, e a descrição que obtivermos será evidentemente uma aproximação”, explica Alinka Lépine-Szily, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP).

Desde 2008, a física da USP faz parte da Comissão de Física Nuclear da União Internacional de Física Pura e Aplicada (Iupap). O grupo que arbitra as reivindicações de descobertas de novos elementos produzidos em laboratório, denominado Joint Working Party (JWP), é escolhido pelas direções da Iupap e da União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac).

Os experimentos muitas vezes geram evidências indiretas da existência de um novo elemento superpesado, como a emissão de radiação alfa, em vez de um registro direto da produção de átomos. Uma vez que o JWP reconheça a descoberta, o pleito segue para a Iupac, a quem cabe incluir o elemento na versão oficial da tabela periódica.

O elemento mais pesado da tabela periódica foi batizado de oganessônio em homenagem ao físico russo Yuri Oganessian (VPRO/Wikimedia Commons)

Por ora em compasso de espera, a expansão da tabela pode vir do domínio de novas técnicas de fusão nuclear capazes de gerar variantes (isótopos) de elementos superpesados que sejam mais estáveis. Todos os isótopos de um elemento apresentam a mesma quantidade de prótons (têm, portanto, o mesmo número atômico), mas diferem no número de nêutrons em seu núcleo. Nos elementos naturais leves, o número de prótons é igual ao de nêutrons. Nos mais pesados, há mais nêutrons que prótons, tendência que cresce conforme aumenta o peso do átomo. Para os superpesados, cálculos teóricos preveem a existência de núcleos mais estáveis, denominados “ilhas de estabilidade”.

Esses elementos seriam mais duradouros do que os que têm sido produzidos em aceleradores de partículas até agora. “Alguns desses isótopos poderiam ter meia-vida de horas ou dias ou, segundo os mais otimistas, até milhões de anos”, comenta Lépine-Szily. “O problema é que talvez os experimentos hoje capazes de criar elementos superpesados ainda não consigam agregar nêutrons em quantidade suficiente para chegar à ilha de estabilidade.”

Há, no entanto, progressos relativos nesse sentido. Apesar de o tempo de decaimento radioativo decrescer com o aumento da quantidade de prótons no núcleo, parece ter sido observada uma mudança de comportamento nos últimos elementos agregados à tabela periódica. Em colaboração com os laboratórios nacionais norte-americanos de Oak Ridge e do Lawrence Livermore, o grupo de Oganessian criou isótopos superpesados dos elementos de número 115, 116 e 117 com tempo de decaimento radioativo que se mantém em torno de dezenas de milissegundos. Na parceria com o Flerov, os norte-americanos fornecem os alvos de metais radioativos, como berquélio (Bk), o elemento 97, que, no laboratório russo, são bombardeados por feixes intensos de átomos leves de um dos isótopos do cálcio. O último elemento produzido assim foi o tennesso (TS), de número atômico 117, em 2010.

A colaboração russo-americana é a favorita na corrida pela produção de elementos dentro da “ilha de estabilidade”, mas há laboratórios competitivos no Japão, como o Instituto Riken, e na Alemanha, como o GSI. Até o meio do ano, Oganessian e seus colegas de Dubna deverão contar com um novo centro, a Fábrica de Elementos Superpesados, para procurar elementos desse tipo, que custou US$ 60 milhões. Os novos aceleradores de partículas serão capazes de operar com feixes de íons muito mais intensos. Dois experimentos com 50 dias de duração devem ser feitos ainda em 2019.

Mesmo que a física nuclear não consiga produzir o oganessônio com a mesma facilidade com que fabrica o plutônio, há muita pesquisa a ser feita com uma quantidade mínima de átomos desses elementos superpesados. “A técnica atual disponível nos arranjos experimentais e o conhecimento acumulado sobre propriedades dos elementos permitem que se estude a interação particular de um único átomo ou íon de elementos superpesados com vários outros elementos”, afirma, em entrevista por e-mail à Pesquisa FAPESP, Jadambaa Khuyagbaatar, do grupo de química de elementos superpesados do GSI. “O campo de pesquisa em elementos pesados não se ocupa apenas de sintetizar novos elementos. Investigamos as propriedades de muitos núcleos pesados e superpesados e tentamos encontrar soluções para problemas fundamentais da ciência.”

 

O patriarca do lítio

Mineralogista, Andrada e Silva identificou o mineral petalita, que contém lítio (Wikimedia Commons)

José Bonifácio de Andrada e Silva encontrou o mineral usado na descoberta desse elemento – Terceiro elemento mais leve da tabela, o lítio foi identificado em um minério descrito por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), conhecido como o Patriarca da Independência por sua articulação no movimento de 1822 ao lado de dom Pedro I.

Famoso pela atuação política, esse paulista de Santos foi também um respeitado mineralogista. Em 1800, publicou descrições da petalita e do espodumênio, dois minerais que descobrira em uma expedição à ilha sueca de Utö. O lítio em si foi purificado pela primeira vez, a partir da petalita, em 1817 pelo sueco Johan August Arfwedson, seu “descobridor”.

“José Bonifácio foi o primeiro cientista brasileiro de renome internacional”, diz Carlos Alberto Filgueiras, químico e historiador da UFMG. “Viveu no Brasil até os 19 anos, quando foi para Portugal. Circulou pela Europa até os 56 anos e teve uma carreira científica de êxito, com passagens pela Alemanha, Suécia, Dinamarca e Itália.” Ele morreu em 1838, três décadas antes da publicação da tabela periódica. Porém transmitiu sua paixão pela química a dom Pedro II, de quem foi tutor entre 1831 e 1836.

Um dos registros mais antigos a mencionar no Brasil a tabela de Mendeleev foi deixado pelo próprio imperador. “Era um pedaço de papel amassado sujo, rasgado, escrito por dom Pedro II, que o datou como de 1879, só 10 anos depois da publicação da tabela periódica”, conta Filgueiras, que estudou o documento, mantido na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, em São Paulo.

Descoberta há 150 anos pelo russo Dmitri Mendeleev, essa ferramenta é considerada uma das conquistas mais relevantes para a ciência moderna.

Mas a Tabela com suas atuais características chega ao século 21, com importante ajuda, que são os Apps. Ganharam uma portabilidade melhor, percorrendo o trajeto de uma ficha plastificada, de uma visualização em desktops para um mundo touchpad, conforme abaixo:

A Tabela Periódica Educalabs é uma aplicativo para tablets disponível gratuitamente na App Store (iPad) e Google Play (Android). Ela facilita o entendimento sobre o comportamento das propriedades periódicas dos elementos através da visualização 3D interativa. Possibilita também a observação tridimensional do modelo atômico de cada elemento e sua respectiva distribuição eletrônica. Esta Tabela Periódica faz parte da Educalabs, uma inovadora Plataforma de Aplicativos Educacionais(fonte: www.educalabs.com)

 

VIDA LONGA A TABELA PERIÓDICA


Bibliografia/Fontes:

  • Garcia, Rafael – A encruzilhada da tabela periódica, Revista FAPESP Edição 277/mar. 2019, São Paulo
  • Agradecimentos a: Paula Iliadis, Marketing & Divulgação – Pesquisa FAPESP, São Paulo
  • ProfessoresCarlos Alberto Filgueiras e Luiz Cláudio Barbosa (Departamento de Química da UFMG).
  • Canal Me salva e Educalabs

Como Carl Sagan salvou o planeta….

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Não há quem não se lembre de Carl Sagan, que foi um cientista, biólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico, autor de mais de 600 publicações científicas, de mais de 20 livros de ciência e ficção científica.[

Foi grande promotor da busca por inteligência extraterrestre através do projeto SETI e também  do envio de mensagens a bordo de sondas espaciais, destinadas a informar possíveis civilizações extraterrestres sobre a existência humana. Foi com suas observações da atmosfera de Vênus, se tornou ou um dos primeiros cientistas a estudar o efeito estufa em escala planetária.

Ele fundou a organização não-governamental Sociedade Planetária e passou grande parte da carreira como professor da Universidade Cornell, onde foi diretor do laboratório de estudos planetários. Se tornou doutor em 1960 pela Universidade de Chicago.

Ganhou muita notoriedade também por seus livros de divulgação científica como pela série televisiva de 1980 Cosmos: Uma Viagem Pessoal, que ele mesmo narrou e co-escreveu.

O livro Cosmos foi publicado para complementar a série. Sagan escreveu também a obra Contact, que se tornou filme em 1997. Além de várias outras premiações ganhou em 1978, o Prémio Pulitzer pelo seu livro The Dragons of Eden.

Mestre em física (1956), e doutor em astronomia e astrofísica (1960), recebeu vários prêmios e condecorações pelo seu trabalho de divulgação científica. Sagan é considerado um dos divulgadores científicos mais carismáticos e influentes da história, graças a sua capacidade de transmitir as ideias científicas e os aspectos culturais ao público leigo.

Dentre tantas realizações científicas Sagan esteve vinculado ao programa espacial dos EUA desde seu começo.

Já na década de 50, trabalhou como assessor da NASA, onde um de seus feitos foi dar as instruções aos astronautas participantes do programa Apollo antes de partirem à Lua.

Ele participou de várias missões que enviaram sondas robóticas para explorar o Sistema Solar, preparando os experimentos para várias destas expedições. Foi o idealizador de incluir junto as sondas espaciais que fossem abandonar o Sistema Solar, uma mensagem universal que pudesse ser potencialmente compreensível por qualquer inteligência extraterrestre que a encontrasse.

A primeira mensagem física enviada ao espaço exterior foi uma placa anodizada, acoplada a sonda espacial Pioneer 10, lançada em 1972. Já a  Pioneer 11, levou uma cópia da placa, seria lançada no ano seguinte. Sagan continuou refinando suas mensagens sendo que mais elaborada e famosa que ajudou a desenvolver e preparar foi o paradoxo, que foi enviada pelas sondas espaciais Voyager em 1977.

Além de todo seu histórico e honrarias na ciência, foi também no ativismo social que Carl Sagan se tornou notoriamente importante. Usou seu conhecimento da ciência para alertar o mundo, pois ele acreditava na equação de Drake, onde até a ausência de estimativas razoáveis, sugerem a formação de um grande número de civilizações extraterrestres, mas a falta de evidências da existência das mesmas, somada ao paradoxo de Fermi, indicaria a tendência das civilizações tecnológicas a se auto-destruir, implicando no último termo da equação de Drake.

Isso despertou o seu interesse em identificar e divulgar as várias maneiras em que a humanidade poderia se auto-destruir, esperando ser capaz de evitar esta catástrofe e, finalmente, permitir que os seres humanos tornassem-se uma espécie capaz de viajar através do espaço.

Com base nestes apontamentos, saiu uma profunda preocupação de Sagan com uma potencial destruição da civilização humana em um holocausto nuclear. Esta reflexão acabou sendo destaque memorável no episódio final da série Cosmos, intitulado Quem fala em nome da Terra?.

Como todos esses pensamentos, Carl Sagan demitiu-se de seu posto de conselheiro no Conselho Científico da Força Aérea Americana e recusou-se voluntariamente a sua autorização de acesso ao material ultra-secreto da Guerra do Vietnam. Já em 1981, Sagan aumentou sua atividade política, especificamente sua oposição à corrida armamentista, durante a presidência do então Ronald Reagan.

Em março de 1983, Reagan anunciou a chamada Iniciativa Estratégica de Defesa, um projeto de bilhões de dólares para desenvolver um sistema abrangente de defesa contra ataques por mísseis nucleares, que ficou popularmente conhecido como o Programa Guerra nas Estrelas. Sagan era contra o projeto, argumentando que era tecnicamente impossível desenvolver esse sistema com a perfeição exigida.

Argumentava ainda que seria muito mais caro para produzir o sistema do que para o inimigo atacar através de outros meios, e que a construção deste sistema poderia desestabilizar dramaticamente o equilíbrio nuclear entre os EUA e a URSS, tornando impossível e impraticável qualquer progresso através de acordos de desarmamento nuclear e muito ao contrário, acelerar a corrida armamentista.

Mikhail Gorbachev já tinha declarado uma moratória unilateral para os testes com armas nucleares, que começariam em 6 de agosto de 1985, na comemoração do 40º aniversário dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, mas administração Reagan havia refutado a iniciativa soviética, e se recusou a seguir o exemplo soviético.

Em resposta, ativistas anti-nucleares e pacifistas americanos realizaram uma série de protestos no local de testes nucleares em Nevada, que começaram na páscoa de 1986 e continuaram até 1987. Centenas de pessoas que começaram na páscoa de 1986 e continuaram até 1987. Centenas de pessoas foram presas, incluindo Sagan.

Sagan expondo sobre o inverno nuclear.

Em 1983 um grupo de cinco cientistas dos EUA: Richard P. Turco, O. B. Toon, T. P. Ackerman, J. Pollack e C. Sagan; sob a sigla TTAPS, divulgaram uma pesquisa sobre as consequências atmosféricas a longo prazo de explosões nucleares. Este estudo, ficou mais conhecido como Inverno Nuclear.

Um conflito nuclear que já assombrava o mundo há décadas acabou sendo o embrião de um cenário de terror explorado junto as mentes envolvidas e a própria civilização naqueles anos:

“Após a queda dos mísseis, tempestades de fogo engoliriam cidades ao redor do mundo, bloqueando o sol e envolvendo o planeta em nuvens de fuligem. As colheitas morreriam, as temperaturas despencariam, e todos aqueles que sobrevivessem às bombas morreriam lentamente em meio às ruínas”.

Esta foi a terrível previsão feita pelo Dr. Carl Sagan em 1983, criando uma imagem que chocou o mundo e que certamente mudou a história. Munido de seus conhecimentos e de suas ações politicas  o Dr. Sagan disse:

“Abaixo das nuvens, praticamente todas as fontes domésticas e selvagens de comida seriam destruídas”.

“A maior parte dos sobreviventes humanos morreria de fome. A extinção da espécie humana seria uma possibilidade real”

O cenário – amplamente explorado por aqueles que faziam campanha contra a guerra – era arrepiante, e pode ter ajudado a neutralizar a Guerra Fria.

O “inverno nuclear” como foi denominado as afirmações de Sagan foi um dos principais fatores que confirmaram a ideia de que a guerra nuclear não seria, e não poderia ser, vencida por nenhum dos lados.

Sagan destacou também, que a devastação da guerra nuclear não se restringiria aos países donos das armas nucleares à época, como o Reino Unido, os Estados Unidos e a União Soviética.

Sagan foi um dos membros de uma equipe de cientistas que publicou em 1983 um estudo na revista Science, usando técnicas de modelagem computacional para prever os efeitos de uma guerra nuclear de grande escala sobre o clima da Terra.

O “inverno nuclear” e a contribuição de Sagan para a definição do mesmo foi revisto em 2016 como um documentário do Retro Report em colaboração com o New York Times.

Sagan, foi o que mais se envolveu com a mídia, mostrando na época que mesmo que houvesse a chance da previsão estar errada, não valeria a pena correr o horrível risco de um conflito nuclear.

Afirmaria Sagan naquele Outubro de 1983: “As consequências globais da guerra nuclear não são algo que pode ser verificado através de experimentos, ou pelo menos, não mais do que uma única vez”. “Talvez todos nós tenhamos cometido erros nos cálculos, mas eu não apostaria a minha vida nisso.”

Um mês após as declarações de Carl Sagan e equipe sobre o inverno nuclear, a rede ABC coloca nos cinemas o “The day After”, mostrando como os Estados Unidos ficariam após atacados em um conflito nuclear. São duas horas de um filme com enredo depressivo e de extremas ansiedades.
Já em 1984, líderes mundiais pediram que as nações com poderes nucleares interrompessem os testes, classificando a corrida nuclear como um “suicídio global”.

Até Fidel Castro, que anteriormente havia apoiado a empreitada de Kruschev durante a Crise dos Mísseis de Cuba, mudou de ideia em relação às armas nucleares graças ao inverno nuclear definido por Sagan, assistindo a discursos de cientistas sobre o assunto. O trabalho de Sagan com o objetivo de popularizar a ideia do “inverno nuclear” fez com que ele fosse convidado para conhecer o Papa João Paulo II.

O alvoroço promovido pelo “Inverno Nuclear” provocou que as descobertas da equipe norte-americana foram rapidamente seguidas por pesquisas soviéticas sobre o assunto.

Mikhail Gorbachev afirmaria posteriormente:

“Os modelos elaborados por cientistas russos e norte-americanos mostraram que uma guerra nuclear resultaria em um inverno nuclear que seria extremamente destrutivo para toda a vida na Terra; este conhecimento foi um grande estímulo para que nós e as pessoas de honra e moralidade, agíssem em relação à situação”.

Consequência de toda esta discussão, em 1991 a União Soviética e os Estados Unidos assinaram o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START, na sigla em inglês), que levou a uma redução de 80% no número de armas nucleares estratégicas no planeta.

Seguindo um roteiro parecido com o The day after do século passado, um teaser de lançamento de filme sobre a terceira guerra mundial lançado neste século 21. Nele também se vê presente os alertas de Carl Sagan e sua equipe da TTAPS.
No entanto, como esperado, alguns consideram controversa a contribuição de Sagan. Muitos cientistas, incluindo alguns de seus próprios colaboradores, acreditavam que Sagan exagerou sobre os efeitos do inverno nuclear, possivelmente por motivos políticos.

Até seu colega, o Dr. Richard P Turco, que inventou o termo “inverno nuclear” , afirmara: “A ideia de que o inverno nuclear acabaria com a humanidade foi uma especulação de outras pessoas, incluindo Carl Sagan. Minha opinião pessoal é de que a raça humana não seria extinta, mas a civilização que conhecemos certamente acabaria.”.

Pesquisadores ainda acreditam que uma batalha nuclear poderia alterar o clima da Terra, mas não com a intensidade prevista por Sagan.

Pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, acreditam que um ataque “limitado” no qual 100 armas nucleares fossem detonadas poderia alterar o clima do planeta por 20 anos.

A liberação de fuligem na atmosfera levaria a décadas de “geadas mortais” e mudanças nas estações da Terra.

Uma enorme perda de ozônio em áreas habitadas levaria às temperaturas médias mais frias na superfície terrestre nos últimos mil anos.

Os pesquisadores dizem: “O conhecimento a respeito dos impactos de 100 pequenas armas nucleares deveria motivar a eliminação das mais das milhares de armas nucleares que existentes na atualidade.”

Contudo difícil prever que um ataque seria limitado a 100 armas nucleares, já que o potencial armazenado é muito maior que isto e as arrogâncias de um conflito pararia longe de algo limitado.

Fato é que Carl Sagan e suas equipes, evitaram o fim da civilização no século passado, e uma reflexão nos tempos atuais, mostra que os ensinamentos por ele divulgados podem estar sendo esquecidos, já que o número de players com armas nucleares vem aumentando tão quanto o número de artefatos.

Falecido em 20 de Dezembro de 1996, por consequências de uma doença rara (mielodisplasia), aos 62 anos, Carl Sagan se ainda vivo mostraria-se frustrado com esta ampliação do mundo nuclear e suas tensões no melhor estilo da “Guerra Fria”.


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